ESTUDO INDICA QUE 4 EM CADA 10 MORTES POR CÂNCER NO BRASIL PODERIAM SER EVITADAS

Cientistas afirmam que não fumar, manter uma alimentação saudável e manter a vacinação em dia ajudam a prevenir a doença

Screenshot 2026-02-20 at 07-33-29 Estudo mostra que 4 em cada 10 mortes por câncer no Brasil poderiam ser evitadas

📷 Mateus Pereira/Agecom/GOV/BA

20/02/2026 ◦ Por: Ediana Pimenta

Um levantamento internacional sobre mortalidade por câncer aponta que 43,2% das mortes pela doença no Brasil poderiam ser evitadas com ações eficazes de prevenção, identificação precoce e acesso adequado ao tratamento.

De acordo com a pesquisa, entre os casos diagnosticados no país em 2022, cerca de 253,2 mil pessoas devem morrer em até cinco anos após o diagnóstico. Desse total, aproximadamente 109,4 mil óbitos poderiam não ocorrer se houvesse intervenções adequadas.

O estudo, intitulado Mortes evitáveis por meio da prevenção primária, detecção precoce e tratamento curativo do câncer no mundo, foi publicado na edição de março da revista científica The Lancet, uma das mais respeitadas publicações médicas internacionais. O artigo está disponível online.

A pesquisa foi elaborada por 12 especialistas, sendo oito deles ligados à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc), órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde (OMS), com sede em Lyon, na França.

Situação no Brasil

Das quase 110 mil mortes consideradas evitáveis no país:

  • 65,2 mil seriam preveníveis, ou seja, poderiam ser evitadas antes mesmo do surgimento da doença;

  • 44,2 mil poderiam ser evitadas com diagnóstico precoce e tratamento adequado.

Panorama mundial

O estudo analisou dados de 35 tipos de câncer em 185 países. Em nível global, 47,6% das mortes por câncer poderiam ser evitadas. Isso significa que, das 9,4 milhões de mortes registradas, cerca de 4,5 milhões não precisariam ter ocorrido.

Segundo os pesquisadores:

  • 33,2% das mortes são preveníveis;

  • 14,4% poderiam ser evitadas com diagnóstico precoce e tratamento eficaz.

Entre os principais fatores de risco associados às mortes preveníveis estão:

  • Tabagismo;

  • Consumo de álcool;

  • Excesso de peso;

  • Exposição à radiação ultravioleta;

  • Infecções, como as causadas pelo HPV, hepatites virais e pela bactéria Helicobacter pylori.

Desigualdades entre países

O levantamento revela fortes disparidades regionais.

Nos países do norte da Europa, o percentual de mortes evitáveis gira em torno de 30%. A melhor colocação é da Suécia (28,1%), seguida por Noruega (29,9%) e Finlândia (32%).

Em contrapartida, as maiores proporções estão concentradas na África. A situação mais crítica é a de Serra Leoa (72,8%), seguida por Gâmbia (70%) e Malaui (69,6%).

Enquanto em países mais desenvolvidos cerca de três em cada dez mortes poderiam ser evitadas, nas nações africanas esse número chega a sete em cada dez.

Outros dados regionais:

  • Austrália e Nova Zelândia: 35,5%;

  • Norte da Europa: 37,4%;

  • América do Norte: 38,2%;

  • África Oriental: 62%;

  • África Ocidental: 62%;

  • África Central: 60,7%.

Na América do Sul, o índice é de 43,8%, percentual semelhante ao registrado no Brasil.

Relação com o IDH

Quando os países são agrupados conforme o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), indicador criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), as desigualdades ficam ainda mais evidentes.

  • Países com baixo IDH: 60,8% das mortes poderiam ser evitadas;

  • IDH alto: 57,7%;

  • IDH médio: 49,6%;

  • IDH muito alto: 40,5%.

O Brasil está classificado como país de IDH alto.

Nos países de baixo e médio IDH, o câncer de colo do útero lidera entre as mortes evitáveis. Já nos países com IDH alto e muito alto, esse tipo de câncer não aparece entre os cinco principais.

A disparidade também se reflete nas taxas de mortalidade: em países de IDH muito alto, são 3,3 mortes a cada 100 mil mulheres, enquanto nos de baixo IDH o índice sobe para 16,3 por 100 mil.

Tipos de câncer com mais mortes evitáveis

Segundo o estudo da The Lancet, 59,1% das mortes evitáveis estão relacionadas aos cânceres de:

  • Pulmão;

  • Fígado;

  • Estômago;

  • Colorretal;

  • Colo do útero.

Entre os casos preveníveis, o câncer de pulmão lidera, com 1,1 milhão de mortes, representando 34,6% das mortes que poderiam ser evitadas.

Já o câncer de mama apresenta o maior número de mortes que poderiam ser reduzidas com diagnóstico precoce e tratamento oportuno: cerca de 200 mil óbitos, o equivalente a 14,8% dos casos tratáveis.

Caminhos para reduzir as mortes

Os pesquisadores destacam medidas fundamentais para diminuir os índices:

  • Fortalecer campanhas contra o tabagismo e o consumo de álcool;

  • Aumentar impostos sobre produtos prejudiciais à saúde;

  • Combater o excesso de peso por meio de políticas públicas, como regulação de publicidade e rotulagem de alimentos;

  • Ampliar a vacinação contra o HPV;

  • Melhorar o rastreamento e o diagnóstico precoce do câncer de mama.

O estudo reforça a meta da OMS de que 60% dos casos de câncer de mama sejam diagnosticados nos estágios iniciais e que 80% dos pacientes recebam diagnóstico em até 60 dias após a primeira consulta.

Os autores concluem que é essencial adaptar estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento às realidades locais, especialmente nos países de baixo e médio IDH, para reduzir as desigualdades.

No Brasil, o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) realizam campanhas contínuas voltadas à prevenção e ao diagnóstico precoce da doença.

Você também vai gostar de ler