AFASTAMENTOS POR BURNOUT CRESCEM 823% EM QUATRO ANOS NO BRASIL

Dados da Previdência Social mostram avanço do esgotamento profissional e reforçam alerta para empresas sobre riscos psicossociais

Sindrome-de-Burnout-saiba-o-que-e-e-quais-sao-os-principais-sintomas-sindrome-de-burnout-UMCenter-scaled

Foto: Reprodução / Internet

09/06/2026 ◦ Por: João Vitor Barros

Os afastamentos por burnout cresceram 823% nos últimos quatro anos no Brasil, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Com isso, o esgotamento profissional deixou de aparecer apenas como uma pauta de saúde mental e passou a ocupar espaço direto nas decisões de gestão das empresas.

Em 2021, o país registrou 823 benefícios por incapacidade temporária relacionados ao burnout. Já em 2025, esse número chegou a 7.595 afastamentos, quase nove vezes mais no período.

Além disso, o Brasil encerrou 2025 com mais de 530 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica. Portanto, o tema passou a impactar não apenas os trabalhadores, mas também a produtividade, a retenção de talentos, os custos operacionais e a organização das equipes.

Esgotamento afeta empresas e equipes

Cada afastamento por burnout gera efeitos que vão além da ausência temporária do trabalhador. Na prática, a empresa precisa reorganizar demandas, acionar recrutamento emergencial, lidar com queda de produtividade e redistribuir tarefas entre profissionais que já atuam sob pressão.

Além disso, quando um colaborador experiente se afasta, a organização perde conhecimento acumulado ao longo dos anos. Dessa forma, o impacto atinge também o clima interno, a continuidade dos projetos e a capacidade de entrega da equipe.

Nesse contexto, especialistas defendem que as empresas tratem o burnout como um dado de gestão. Ou seja, não basta enxergar o problema apenas como uma questão individual ou como responsabilidade exclusiva do RH.

Mulheres concentram a maioria dos casos

Os dados também mostram que as mulheres representam a maioria dos afastamentos por burnout. Elas respondem por 64% dos casos, têm idade média de 41 anos e apresentam, principalmente, quadros associados à ansiedade e à depressão.

Em média, essas trabalhadoras permanecem cerca de três meses longe das atividades profissionais. Assim, o impacto não fica restrito ao ambiente de trabalho. Como muitas mulheres também sustentam ou ajudam a sustentar financeiramente suas famílias, o afastamento pode afetar diretamente a organização dos lares.

Além disso, especialistas apontam que as mulheres acumulam múltiplas jornadas. Muitas conciliam trabalho formal, tarefas domésticas, cuidado com filhos, familiares e outras responsabilidades. Consequentemente, esse acúmulo aumenta a exposição ao esgotamento físico e emocional.

Pressão, metas e excesso de conexão estão entre as causas

Especialistas relacionam o crescimento dos afastamentos por burnout a diferentes fatores. Entre eles estão vínculos precários, jornadas longas, baixos salários, metas inalcançáveis, pressão constante, cobrança excessiva e falta de tempo real para recuperação.

Além disso, o uso intenso de tecnologias digitais ampliou a chamada jornada invisível. Mesmo depois do expediente, muitos trabalhadores continuam respondendo mensagens, e-mails e demandas profissionais.

Com isso, a fronteira entre trabalho e vida pessoal fica cada vez mais frágil. O descanso até pode acontecer fisicamente, mas nem sempre ocorre do ponto de vista mental. Dessa maneira, o organismo permanece em estado de alerta por mais tempo e encontra menos espaço para se recuperar.

Burnout integra classificação da OMS

Desde 2022, a Organização Mundial da Saúde incluiu o burnout na Classificação Internacional de Doenças, a CID-11. A entidade define a condição como um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no trabalho que não recebeu manejo adequado.

O quadro envolve três dimensões principais: exaustão intensa, distanciamento mental ou cinismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.

Ainda assim, especialistas alertam que nem todo sofrimento mental corresponde a burnout. Por isso, profissionais de saúde precisam avaliar se os sintomas têm relação direta com o ambiente profissional e com a forma como o trabalho se organiza.

NR-1 aumenta responsabilidade das empresas

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1, em vigor desde maio de 2026, ampliou a responsabilidade das empresas sobre os riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

Com a mudança, fatores como sobrecarga, metas abusivas, pressão excessiva por produtividade, assédio moral, conflitos interpessoais, falta de autonomia e ausência de suporte passaram a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos.

Dessa forma, as empresas precisam mapear, prevenir e documentar as ações adotadas para reduzir riscos à saúde mental dos trabalhadores. Além disso, a gestão desses riscos deixa de ser apenas uma iniciativa de bem-estar e passa a fazer parte das obrigações de segurança e saúde ocupacional.

A falta de controle adequado também pode gerar consequências jurídicas. Em processos trabalhistas, a empresa pode responder quando o trabalhador comprova que o ambiente profissional contribuiu para o adoecimento.

Reconhecimento jurídico exige comprovação

A inclusão do burnout na CID-11 aumentou a visibilidade do problema. No entanto, ela não garante automaticamente o reconhecimento jurídico como doença ocupacional no Brasil.

Para que a Justiça equipare o burnout a acidente de trabalho, o trabalhador precisa comprovar o nexo entre o adoecimento e as condições profissionais. Portanto, documentos, laudos e registros assumem papel importante nesse processo.

Entre as provas estão diagnóstico médico, relatórios clínicos, afastamento previdenciário, perícia, registros de excesso de jornada, metas abusivas, cobranças desproporcionais, mensagens, e-mails, ponto e testemunhas.

Quando a Justiça reconhece o vínculo com o trabalho, o trabalhador pode ter direito à estabilidade provisória de 12 meses após o retorno. Além disso, dependendo do tipo de benefício concedido pelo INSS, outros direitos também podem ser garantidos.

Denúncias sobre saúde mental também avançam

O avanço dos casos também aparece nas denúncias relacionadas à saúde mental no trabalho. Segundo dados citados na reportagem, o Ministério Público do Trabalho registrou alta de cerca de 438% nas denúncias sobre o tema entre 2021 e 2025.

Esse crescimento reforça a percepção de que os trabalhadores estão mais atentos aos impactos do ambiente profissional sobre a saúde mental. Ao mesmo tempo, especialistas avaliam que muitos casos ainda não chegam aos registros oficiais.

No passado, muitos trabalhadores recebiam diagnóstico de ansiedade, depressão ou estresse sem que profissionais ou empresas associassem o quadro ao trabalho. Dessa forma, parte do problema permanecia subnotificada.

Saúde mental vira tema estratégico

A Organização Internacional do Trabalho estima que os riscos psicossociais provoquem perda anual equivalente a 1,37% do PIB global. Esse impacto envolve afastamentos, queda de produtividade, rotatividade, perda de engajamento e aumento dos custos de reposição.

Por isso, empresas que tratam saúde mental apenas como ação pontual de bem-estar podem acumular prejuízos. O tema exige diagnóstico, gestão, prevenção, documentação e mudanças reais na organização do trabalho.

Nesse cenário, cuidar da saúde mental dos trabalhadores deixa de representar apenas uma pauta de responsabilidade social. Agora, o tema também se tornou uma decisão estratégica, com impacto direto nos resultados, na sustentabilidade das equipes e na continuidade dos negócios.

Para saber mais sobre as noticias do Brasil e do mundo basta acessar o Rede Fonte News

Você também vai gostar de ler