NOVO RADAR CALCULA VELOCIDADE MÉDIA E MIRA “FREIA E ACELERA” NAS RODOVIAS

Tecnologia monitora veículos ao longo de trechos, mas ainda não pode gerar multas no Brasil por falta de previsão legal

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Foto: Reprodução / Internet

23/06/2026 ◦ Por: João Vitor Barros

Concessionárias de rodovias começaram a testar uma tecnologia que calcula a velocidade média dos veículos ao longo de um trecho, em vez de registrar apenas a passagem por um ponto fixo.

Dessa forma, o sistema consegue identificar motoristas que reduzem a velocidade perto do radar e voltam a acelerar logo depois. A prática ficou conhecida como comportamento de “freia e acelera”.

Apesar dos testes, a tecnologia ainda não pode gerar multas no Brasil. Segundo o Ministério dos Transportes, o Código de Trânsito Brasileiro não prevê autuações com base na velocidade média.

Como funciona o radar de velocidade média

O sistema utiliza dois pontos de controle instalados nas extremidades do trecho monitorado.

Quando o veículo passa pelo primeiro ponto, uma câmera registra a placa, o horário e a velocidade instantânea. Depois disso, outro equipamento repete o procedimento no fim do percurso.

Com base no tempo usado para percorrer a distância entre os dois pontos, um sistema calcula a velocidade média do veículo.

Além disso, câmeras com leitura automática de placas e ferramentas de inteligência artificial ajudam a cruzar as informações.

Assim, mesmo que o motorista passe devagar diante dos equipamentos, o sistema pode detectar se ele excedeu o limite durante o restante do trajeto.

Metade dos carros ultrapassou o limite

A concessionária SPMar testou a tecnologia em um trecho de 5,5 quilômetros do Rodoanel Mário Covas, em Ribeirão Pires, na Região Metropolitana de São Paulo.

O trecho permite velocidade máxima de 100 km/h para automóveis e de 80 km/h para veículos pesados.

Durante o monitoramento de 117 mil veículos, cerca de 51% dos carros registraram velocidade média acima do limite.

Segundo a concessionária, muitos motoristas passaram pelos pontos de controle a aproximadamente 86 km/h. No entanto, concluíram o trecho com média superior a 110 km/h, o que indica aceleração entre os equipamentos.

Nove em cada dez veículos pesados excederam velocidade

Entre caminhões e ônibus, o resultado chamou ainda mais atenção.

De acordo com o levantamento, 91,2% dos veículos pesados apresentaram velocidade média acima do limite permitido no trecho.

Além disso, esses veículos podem provocar consequências mais graves em acidentes, principalmente quando transportam cargas perigosas.

Enquanto a tecnologia não recebe autorização para autuar, a concessionária compartilha as informações com a Polícia Militar Rodoviária para apoiar ações preventivas.

O sistema também consegue identificar falta do uso do cinto de segurança, pendências administrativas e veículos com registros de furto ou roubo.

Teste na BR-050 reduziu mortes

A EcoRodovias também testa o monitoramento por velocidade média desde 2022 em um trecho de 11 quilômetros da BR-050, administrado pela Ecovias Minas Goiás.

Segundo a concessionária, o uso da tecnologia, combinado com ações educativas, contribuiu para reduzir em 75% o número de mortes e em 25% a quantidade de acidentes no local.

Durante o período analisado, mais de 167 mil veículos percorreram o trecho acima do limite de velocidade.

No entanto, apenas cerca de 2,7 mil estavam acima do permitido ao passar pelos radares de medição pontual. Dessa forma, os dados reforçaram a presença do comportamento de desacelerar apenas diante do equipamento.

Sistema ainda não pode aplicar multas

O Ministério dos Transportes afirma que não existe fiscalização por velocidade média em operação ou em testes autorizados pela Secretaria Nacional de Trânsito.

Portanto, as concessionárias não podem usar os registros para aplicar multas ou adicionar pontos à carteira de habilitação.

Além disso, o ministério informa que a adoção do modelo depende de previsão específica no Código de Trânsito Brasileiro e de regulamentação pelo Conselho Nacional de Trânsito.

Mesmo assim, as concessionárias podem usar os testes para estudar o comportamento dos motoristas, identificar pontos perigosos e planejar medidas de segurança viária.

Multas atuais continuam baseadas em medição instantânea

Enquanto o novo modelo não recebe regulamentação, continuam valendo as multas registradas pelos radares tradicionais.

Para quem trafega até 20% acima do limite, a infração é média, com multa de R$ 130,16 e quatro pontos na CNH.

Já o excesso entre 20% e 50% representa infração grave, com multa de R$ 195,23 e cinco pontos.

Por outro lado, quem ultrapassa o limite em mais de 50% comete infração gravíssima. Nesse caso, a multa chega a R$ 880,41, com possibilidade de suspensão da habilitação.

Tecnologia avança em outras rodovias

A EcoRodovias iniciou a expansão do monitoramento para outras concessionárias do grupo, como Ecovias Araguaia, Ponte, Capixaba, Leste Paulista e Norte Minas.

A empresa pretende superar 70 quilômetros monitorados em 2026. Além disso, prevê realizar blitze educativas em parceria com forças policiais.

A Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias também mantém conversas com autoridades para reunir evidências e apoiar uma futura regulamentação.

Países europeus usam sistema há mais de 20 anos

Países como Itália, Portugal, Escócia e Áustria utilizam o radar de velocidade média há mais de duas décadas.

Na Itália, dados apontam redução de 56% na taxa de mortalidade depois da implantação do sistema.

Já na Escócia, o número de mortos e feridos graves caiu 70%. Antes da tecnologia, um em cada dez veículos trafegava acima do limite. Depois, essa proporção caiu para um em cada 250.

Na Áustria, um dos trechos monitorados ficou cerca de 20 anos sem registrar acidente fatal e apresentou redução de 50% nos sinistros.

São Paulo testou tecnologia em 2017

A Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo testou o sistema em 2017 nas avenidas 23 de Maio, dos Bandeirantes e Jacu-Pêssego, além da Marginal Tietê.

No primeiro mês, as câmeras identificaram 230 mil motoristas acima da velocidade média permitida.

No entanto, a fiscalização teve caráter educativo. Os condutores receberam notificações, mas não sofreram autuação porque a legislação permitia apenas multas baseadas na velocidade instantânea.

Projeto tramita no Congresso

O Projeto de Lei 2.789/2023 propõe alterar o Código de Trânsito Brasileiro para permitir que a velocidade média registrada em um trecho tenha validade para fiscalização e autuação.

Em março, a proposta seguiu para a comissão especial criada pela Câmara dos Deputados para analisar mudanças no Código de Trânsito.

Até o momento, o Congresso Nacional ainda não definiu uma data para votar o projeto em plenário.

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