CÉREBRO PODE APRESENTAR MUDANÇAS ANOS ANTES DE PLACAS DO ALZHEIMER, APONTA ESTUDO
Pesquisa da Universidade de Oslo identificou alterações estruturais pelo menos sete anos antes de exames detectarem placas amiloides
Foto: Reprodução / Internet
O cérebro pode apresentar alterações estruturais relacionadas à doença de Alzheimer pelo menos sete anos antes de exames detectarem placas amiloides. Pesquisadores da Universidade de Oslo, na Noruega, identificaram essas mudanças ao acompanhar adultos mais velhos durante quase duas décadas.
A equipe analisou idosos cognitivamente saudáveis que realizaram exames periódicos de ressonância magnética. Dessa forma, os cientistas conseguiram acompanhar as transformações na estrutura cerebral ao longo dos anos.
Além disso, os pesquisadores compararam esses exames com imagens posteriores obtidas por tomografia por emissão de pósitrons, a PET. O estudo saiu em 19 de agosto na revista científica Nature Neuroscience.
Pesquisadores encontram mudanças sete anos antes das placas
Os cientistas dividiram os participantes entre aqueles que posteriormente desenvolveram placas amiloides e aqueles que não apresentaram esse sinal.
Em seguida, a equipe voltou às ressonâncias realizadas nos anos anteriores. A análise mostrou diferenças na estrutura cerebral pelo menos sete anos antes de os exames PET identificarem níveis elevados de placas.
“Descobrimos que alterações estruturais no cérebro ocorrem muitos anos antes de altos níveis de placas serem vistos em exames PET”, afirmou James Michael Roe, principal pesquisador do estudo.
Com isso, os resultados indicam que os exames utilizados atualmente podem não captar algumas das primeiras transformações associadas ao processo da doença.
Participantes mantinham funcionamento cognitivo preservado
Outro aspecto chamou a atenção dos pesquisadores: os participantes ainda mantinham o funcionamento cognitivo preservado durante parte do período em que o cérebro já apresentava alterações estruturais.
Anders Martin Fjell, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Oslo e chefe do Centro para Mudanças ao Longo da Vida no Cérebro e Cognição, explicou que a equipe concentrou a análise justamente nos anos anteriores ao primeiro exame que mostrou placas.
“Examinamos mudanças na estrutura cerebral nos anos anteriores ao primeiro exame que revelou placas”, afirmou.
Portanto, o estudo permite analisar uma fase anterior à detecção das placas pelos métodos atuais. No entanto, os pesquisadores ainda precisam esclarecer o papel exato dessas mudanças no desenvolvimento da doença.
Estudo levanta diferentes hipóteses
Os cientistas consideram mais de uma explicação para as alterações encontradas.
Por um lado, processos prejudiciais podem começar antes que os exames consigam detectar as placas. Esses mecanismos poderiam contribuir para o acúmulo posterior de amiloide.
Por outro lado, o próprio processo de formação das placas pode provocar mudanças cerebrais mesmo quando a quantidade de amiloide ainda permanece abaixo do limite detectável pelos exames PET.
Além disso, os pesquisadores avaliam uma terceira possibilidade: outros mecanismos biológicos podem modificar o cérebro antes mesmo do início do acúmulo relevante de amiloide.
Dessa forma, o estudo amplia a investigação sobre o que acontece no cérebro durante os primeiros estágios relacionados ao Alzheimer.
Descoberta pode ampliar linhas de pesquisa sobre tratamentos
Caso mecanismos independentes do acúmulo de amiloide provoquem parte dessas alterações, pesquisadores poderão precisar investigar outros alvos para futuros tratamentos.
“Se isso for verdade, sugere que é importante continuar desenvolvendo medicamentos voltados a processos além do acúmulo de placas amiloides. Mas precisamos de mais pesquisa”, afirmou Fjell.
Entretanto, o próprio estudo não determina qual hipótese explica melhor as alterações identificadas. Por isso, os cientistas ainda precisam acompanhar novos grupos e investigar outros marcadores associados à doença.
Mayo Clinic também pesquisa mudanças precoces
Enquanto a equipe da Universidade de Oslo analisou alterações estruturais anteriores à detecção das placas, pesquisadores da Mayo Clinic estudaram em que momento diferentes sinais relacionados ao Alzheimer começam a ganhar intensidade ao longo da vida.
A pesquisa reuniu dados de 2.082 participantes e analisou exames de imagem cerebral, biomarcadores sanguíneos e desempenho cognitivo.
Segundo os pesquisadores, vários marcadores começaram a apresentar mudanças mais perceptíveis entre o final dos 50 anos e o início dos 70.
Por exemplo, a equipe identificou quedas mensuráveis no desempenho cognitivo a partir do final dos 50 anos. Depois disso, o acúmulo de amiloide no cérebro ganhou velocidade principalmente no início dos 60 anos.
Já entre o final dos 60 e o início dos 70 anos, os pesquisadores encontraram alterações mais acentuadas em marcadores relacionados à proteína tau, à neurodegeneração e à atrofia cerebral.
Exames de sangue também ganham espaço nas pesquisas
Além das imagens do cérebro, cientistas também analisam exames de sangue como ferramenta para acompanhar alterações relacionadas ao Alzheimer.
No estudo da Mayo Clinic, marcadores como GFAP, NfL e p-tau apresentaram mudanças mais intensas aproximadamente entre os 68 e 72 anos.
Com isso, os pesquisadores avaliam que testes sanguíneos podem ajudar no acompanhamento de pessoas com maior risco de desenvolver a doença. Além disso, esse tipo de exame pode facilitar pesquisas que buscam identificar alterações antes do surgimento dos sintomas.
No entanto, os autores destacam que os resultados mostram tendências observadas em grupos populacionais. Portanto, os dados não permitem determinar individualmente se uma pessoa terá Alzheimer nem quando a doença poderá aparecer.
Os pesquisadores da Universidade de Oslo afirmam que ainda precisam investigar se as alterações estruturais identificadas acontecem como consequência do processo relacionado ao amiloide ou se outros mecanismos biológicos começam a modificar o cérebro antes do acúmulo das placas.
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