CÂMARA APROVA PROJETO QUE PERMITE VENDA DE MEDICAMENTOS EM SUPERMERCADOS E TEXTO VAI À SANÇÃO
Câmara aprova projeto que autoriza farmácias dentro de supermercados para vender medicamentos isentos de prescrição; texto segue para sanção.
FOTO: Marcello Casal Jr Agência Brasil
A Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que permite a venda de medicamentos isentos de prescrição médica (MIPs) em supermercados. Com a aprovação, o texto segue para sanção presidencial. A proposta foi tratada, nos bastidores, como um dos temas mais disputados no Congresso, justamente porque opõe interesses de grandes redes supermercadistas e representantes do setor farmacêutico.
Ao mesmo tempo em que amplia a possibilidade de oferta, o projeto impõe uma série de exigências para manter o funcionamento dentro das regras sanitárias já aplicadas às farmácias e drogarias.
O que muda na prática
Pelo texto aprovado, supermercados poderão ter farmácias ou drogarias funcionando dentro do estabelecimento, porém com uma condição central: o espaço deve ser totalmente separado, delimitado e exclusivo para a atividade farmacêutica.
Além disso, essa estrutura poderá operar de duas formas:
- Pelo próprio supermercado, sob sua identidade fiscal; ou
- Por empresa licenciada, por meio de contrato com drogaria ou farmácia registrada nos órgãos competentes.
Ainda assim, em qualquer modelo, o projeto exige o cumprimento de obrigações sanitárias e técnicas equivalentes às cobradas fora do ambiente do mercado.
O que o projeto exige das farmácias dentro dos supermercados
Para evitar que medicamentos sejam tratados como mercadoria comum, a proposta reforça pontos operacionais. Assim, a farmácia instalada no supermercado deverá seguir exigências como:
- Presença obrigatória de farmacêutico durante todo o horário de funcionamento;
- Estrutura física adequada, com regras para armazenamento e conservação;
- Controle de temperatura, ventilação, iluminação e umidade conforme padrão sanitário;
- Rastreabilidade e assistência farmacêutica, incluindo práticas de cuidado e orientação;
- Estrutura compatível com a atividade, com previsão de consultório farmacêutico quando aplicável.
Dessa forma, a venda não seria “no corredor do mercado”, mas dentro de um setor formalmente reconhecido como farmácia.
O que fica proibido
O texto aprovado proíbe a exposição e a venda de medicamentos em áreas abertas, como gôndolas, bancadas promocionais, estandes externos ao setor farmacêutico ou espaços comunicáveis sem separação funcional completa.
Ou seja, o projeto não autoriza remédios no caixa do supermercado, nem em prateleiras ao lado de alimentos e itens de limpeza. A comercialização deve ocorrer exclusivamente dentro do espaço destinado à farmácia/drogaria.
Regras para remédios controlados
Outro ponto destacado no texto envolve medicamentos sujeitos a controle especial. Nesses casos, a proposta prevê que a entrega do remédio ao consumidor aconteça somente após o pagamento, reduzindo risco de desvio durante o processo.
Além disso, o texto permite que o medicamento controlado seja transportado até o ponto de pagamento em embalagem lacrada, inviolável e identificável, mantendo a exigência de retenção de receita quando prevista na legislação sanitária.
Venda por canais digitais e entrega
O projeto também abre espaço para que farmácias licenciadas utilizem canais digitais e plataformas de comércio eletrônico para logística e entrega. Ainda assim, a regra é que o serviço deve respeitar integralmente a regulamentação sanitária aplicável.
Assim, o texto não cria uma “flexibilização geral” do setor, mas amplia meios de atendimento dentro das normas já existentes.
Disputa política e pressão de setores
A tramitação foi marcada por disputa intensa entre grupos com posições opostas. Por um lado, defensores afirmam que a medida pode facilitar o acesso, principalmente em regiões onde há menor oferta de farmácias.
Por outro lado, críticos sustentam que a mudança pode aumentar a exposição ao consumo impulsivo e, consequentemente, elevar o risco de automedicação, mesmo quando se trata de medicamentos sem prescrição.
Nesse contexto, o relator na Câmara, deputado Dr. Zacharias Calil (União-GO), afirmou que o debate no Legislativo é recorrente e que o texto buscou um ponto de equilíbrio após anos de discussão.
O que foi dito contra e a favor no plenário
Entre as críticas, parlamentares apontaram que a proposta pode:
- Estimular a automedicação, por aproximar o ato de comprar remédios da rotina de compras;
- Favorecer interesses econômicos, com risco de priorizar o consumo em detrimento da orientação em saúde;
- Criar desafios de fiscalização, especialmente em localidades menores, onde a separação física e a presença efetiva do farmacêutico podem ser mais difíceis de verificar.
Ao mesmo tempo, defensores reagiram dizendo que:
- O projeto não cria venda em gôndolas, e sim farmácias completas dentro do mercado;
- A exigência de farmacêutico presente mantém o padrão sanitário;
- A medida pode aumentar concorrência e capilaridade, sem alterar o tipo de medicamento permitido.
Próximos passos: sanção presidencial
Com a aprovação na Câmara, o projeto segue agora para sanção presidencial. A partir desse ponto, o texto pode ser sancionado integralmente, sancionado com vetos ou devolvido, conforme as prerrogativas do Executivo.
Enquanto isso, a discussão pública segue concentrada em dois eixos: de um lado, a promessa de ampliar o acesso; do outro, o receio de impactos sobre o uso racional de medicamentos e a fiscalização do funcionamento real das farmácias dentro de supermercados.
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