CERCA DE 300 MIL IDOSOS BRASILEIROS TÊM ALGUM GRAU DE TEA, APONTA ESTUDO

Estudo aponta que cerca de 300 mil idosos brasileiros têm algum grau de TEA; diagnóstico tardio ainda enfrenta desafios na saúde pública.

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

05/01/2026 ◦ Por: João Vitor Barros

Atualmente, cerca de 0,86% dos brasileiros com 60 anos ou mais declaram viver com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esse percentual representa, portanto, aproximadamente 306.836 pessoas em todo o país. O dado surge a partir de uma análise realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com base nos números do Censo Demográfico de 2022.

Além disso, o levantamento identificou diferenças entre os sexos. Entre os homens, a prevalência chega a 0,94%. Já entre as mulheres, o índice atinge 0,81%. Dessa forma, os números indicam que o TEA também se manifesta de maneira relevante na população idosa, um grupo historicamente pouco analisado em estudos nacionais.

Em paralelo, estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 70 milhões de pessoas vivem com algum grau de TEA em todo o mundo. A condição do neurodesenvolvimento envolve dificuldades persistentes na comunicação e na interação social. Embora o diagnóstico costume ocorrer na infância, o transtorno acompanha o indivíduo ao longo de toda a vida.

No entanto, quando se observa a população idosa, o reconhecimento do TEA ainda enfrenta limitações significativas. Frequentemente, profissionais identificam barreiras tanto no diagnóstico quanto no acesso a terapias e acompanhamentos especializados.

Políticas públicas e lacunas na pesquisa

Nesse contexto, a pesquisadora Uiara Raiana Vargas de Castro Oliveira Ribeiro, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da PUCPR, avalia que os dados reforçam a necessidade de políticas públicas específicas para adultos mais velhos no espectro. Segundo ela, embora a prevalência tenha crescido nos últimos anos, a produção científica sobre autismo e envelhecimento ainda permanece restrita.

Além disso, a ausência de estudos aprofundados dificulta a formulação de estratégias eficazes no sistema público de saúde. Por isso, o levantamento contribui para ampliar a compreensão sobre o tema e subsidiar futuras ações governamentais.

Impactos na saúde da população idosa no espectro

Ao longo do envelhecimento, pessoas no espectro autista enfrentam desafios adicionais. De acordo com a pesquisadora, esse grupo apresenta alta prevalência de comorbidades psiquiátricas, como ansiedade e depressão. Ao mesmo tempo, cresce o risco de declínio cognitivo.

Somado a isso, surgem com maior frequência doenças cardiovasculares e disfunções metabólicas. Dificuldades na comunicação, sobrecarga sensorial e comportamentos rígidos, por sua vez, tendem a dificultar ainda mais o acesso aos serviços de saúde.

Dessa maneira, compreender a dimensão do TEA entre idosos representa um passo essencial para identificar demandas específicas e orientar políticas voltadas a esse público.

Desafios do diagnóstico tardio

Por outro lado, o diagnóstico do TEA na terceira idade segue como um desafio. Muitas manifestações do transtorno, como isolamento social, inflexibilidade e interesses restritos, costumam se confundir com sintomas de depressão, ansiedade ou demência.

Além disso, a escassez de profissionais capacitados e as mudanças nos critérios diagnósticos ao longo das décadas dificultam ainda mais a identificação do transtorno em pessoas idosas.

Ainda assim, quando o diagnóstico ocorre, ele costuma trazer alívio. Segundo a pesquisadora, muitos idosos passam a compreender melhor dificuldades enfrentadas ao longo da vida, o que favorece a autocompreensão e a aceitação pessoal.

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