JOVENS PRIORIZAM EQUILÍBRIO E DIZEM NÃO A CARGOS DE LIDERANÇA

Pesquisas mostram que profissionais da Geração Z e millennials valorizam propósito, flexibilidade e qualidade de vida ao planejar a carreira

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Foto: Reprodução / Internet

25/07/2026 ◦ Por: João Vitor Barros

Crescer profissionalmente deixou de significar, necessariamente, assumir uma posição de chefia para parte dos trabalhadores mais jovens. Pesquisas indicam que integrantes da Geração Z e millennials priorizam equilíbrio, propósito e flexibilidade ao tomar decisões sobre a carreira.

Segundo um levantamento realizado pela consultoria Deloitte em 2025, apenas 6% dos entrevistados das duas gerações apontaram a chegada a uma posição de liderança como principal objetivo profissional.

Ao mesmo tempo, a preocupação financeira aumentou. Entre os participantes, 48% da Geração Z e 46% dos millennials afirmaram não se sentir financeiramente seguros. Em 2024, esses percentuais eram de 30% e 32%, respectivamente.

Dessa forma, ganhar mais dinheiro e assumir uma função de gestão deixaram de representar, obrigatoriamente, o mesmo caminho profissional.

Jovens não rejeitam totalmente a liderança

Apesar dos dados, a rejeição aos cargos de chefia não ocorre de forma generalizada.

Segundo Lina Nakata, professora e pesquisadora da FIA Business School, os jovens apresentam uma propensão 32% menor de buscar posições de liderança em comparação à média dos profissionais.

Entre pessoas de 18 a 22 anos, 15% apontam a liderança como uma prioridade. Já na faixa de 33 a 39 anos, que apresenta o maior interesse por funções de gestão, o percentual sobe para 23%.

Portanto, o interesse pode aumentar conforme o profissional ganha experiência e avança dentro das empresas.

“À medida que avançamos na carreira dentro das empresas, essa expectativa de liderança aumenta”, explicou a pesquisadora.

Identificação com a empresa influencia decisão

Além do momento profissional, a relação com a empresa também pesa na decisão.

De acordo com Lina Nakata, os jovens tendem a aceitar funções de liderança quando se identificam com os valores da organização e percebem coerência entre o discurso institucional e as práticas adotadas.

Assim, não se trata apenas de assumir uma posição hierarquicamente superior. Para esses profissionais, também importa liderar em um ambiente compatível com seus valores e objetivos pessoais.

A pesquisadora lembra ainda que críticas semelhantes foram feitas aos millennials quando eles ingressaram no mercado de trabalho.

Segundo ela, cada geração passa por um processo de adaptação. Com o tempo, a convivência no ambiente corporativo pode modificar expectativas e revelar outras possibilidades de carreira.

Mudança não significa falta de ambição

A redução do interesse por cargos de gestão também não representa, necessariamente, falta de ambição.

Para a professora, houve uma mudança nos critérios utilizados pelos trabalhadores para definir sucesso profissional. Décadas atrás, a ideia de realização estava mais ligada a promoções, salários elevados e posições superiores dentro das empresas.

Agora, porém, fatores como saúde mental, autonomia, tempo livre e qualidade de vida ganharam importância.

Além disso, os profissionais mais jovens questionam modelos que associam sucesso a jornadas excessivas, estresse constante e dedicação integral ao trabalho.

Mais responsabilidade nem sempre compensa

A relação entre responsabilidades e remuneração também influencia a decisão.

Em muitos casos, o cargo de liderança exige mais disponibilidade, gestão de equipes, administração de recursos e participação em decisões complexas. No entanto, a compensação financeira nem sempre acompanha esse aumento de atribuições.

Por isso, parte dos jovens avalia cuidadosamente se a promoção realmente oferece vantagens.

O analista de redes sociais Mateus Araújo, de 28 anos, recusou uma proposta para coordenar a própria equipe. Segundo ele, o novo cargo exigiria uma rotina mais imprevisível, maior presença no ambiente de trabalho e mais contato com colaboradores e parceiros.

Além disso, a remuneração oferecida não compensaria as novas responsabilidades.

“Minha paz e uma rotina mais previsível têm muito mais peso para mim”, afirmou.

Qualidade de vida ganha espaço nas decisões

Atualmente, as prioridades de Mateus incluem estabilidade, flexibilidade e a possibilidade de realizar trabalhos como freelancer.

Mesmo assim, ele não descarta aceitar uma posição de liderança no futuro. A decisão dependerá das condições oferecidas e do momento profissional.

Esse comportamento acompanha uma mudança mais ampla no mercado. Como as pessoas vivem e trabalham por mais tempo, muitos profissionais passaram a considerar a qualidade de vida desde o início da carreira.

A pesquisa da Deloitte mostrou que cerca de 40% da Geração Z e dos millennials se preocupam com a possibilidade de não conseguir se aposentar com conforto financeiro.

Diante disso, os jovens buscam trajetórias profissionais que possam ser mantidas durante períodos mais longos, sem comprometer completamente a vida pessoal.

Propósito é considerado essencial

O propósito também aparece entre os principais fatores de satisfação.

Segundo a Deloitte, 89% da Geração Z e 92% dos millennials consideram importante encontrar propósito no trabalho para manter o bem-estar profissional.

Dessa maneira, assumir uma função de gestão perde relevância quando o cargo não oferece identificação, desenvolvimento ou impacto compatível com as expectativas do trabalhador.

Por outro lado, novos desafios podem continuar sendo valorizados, mesmo quando não envolvem a coordenação de equipes.

Carreiras horizontais ganham espaço

A modernização do mercado também ampliou as possibilidades de crescimento.

Com o surgimento de novas profissões e especializações, profissionais podem aumentar a remuneração, desenvolver conhecimentos e assumir projetos mais complexos sem subir na hierarquia tradicional.

Assim, as chamadas carreiras horizontais oferecem alternativas para quem deseja evoluir sem se tornar gestor.

Nesse modelo, o trabalhador pode se especializar tecnicamente, atuar como referência em determinada área ou participar de projetos estratégicos sem administrar equipes diretamente.

Empresas precisam tornar liderança mais atrativa

A mudança nas expectativas pressiona as empresas a revisar planos de carreira e estratégias de retenção.

Além do salário, profissionais mais jovens valorizam benefícios, flexibilidade, ambiente saudável e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Por isso, as organizações precisam demonstrar que a promoção oferece recompensas compatíveis com as responsabilidades adicionais.

Para Lina Nakata, o interesse pela gestão continuará existindo. No entanto, as empresas terão de mostrar que ocupar um cargo de liderança realmente vale a pena para o profissional.

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