PRODUTORES DE SOJA DOS EUA PROJETAM PERDAS HISTÓRICAS EM MEIO A CUSTOS RECORDES E DEMANDA ENFRAQUECIDA
Produtores de soja dos EUA projetam perdas históricas com custos recordes, preços baixos e impacto das tensões comerciais com a China.
Foto: Reprodução / Internet
Os produtores de soja dos Estados Unidos enfrentam um dos momentos mais delicados das últimas décadas. De acordo com a Associação Americana de Soja (ASA), a colheita de 2025 deve registrar o maior custo da história em termos de produção por acre. Ao mesmo tempo, os preços recebidos pelos agricultores seguem pressionados, o que amplia as perdas pelo terceiro ano consecutivo.
Segundo a entidade, a combinação entre custos elevados, instabilidade geopolítica e retração da demanda internacional cria um cenário de forte deterioração das margens no campo. Ainda que haja expectativa de algum alívio pontual, o setor avalia que o quadro estrutural permanece desfavorável.
Custos sobem e preços permanecem deprimidos
De acordo com o economista-chefe da ASA, Scott Gerlt, os custos de produção atingiram patamares inéditos. Insumos, juros, combustível e mão de obra seguem bem acima dos níveis observados antes de 2021. Enquanto isso, os preços da soja não acompanharam essa escalada.
Como resultado, mesmo produtores com ganhos de eficiência relatam dificuldade para equilibrar as contas. Assim, a colheita de 2025 tende a se consolidar como a mais cara da história para o sojicultor norte-americano, sem a contrapartida de receita.
Tensões comerciais reduzem exportações
Além dos custos internos, o ambiente externo agravou as dificuldades. As tensões comerciais entre Estados Unidos e China voltaram a pesar sobre o setor. Após a imposição mútua de tarifas no início de 2025, os embarques de soja norte-americana para o mercado chinês ficaram praticamente paralisados entre o fim de maio e o final de novembro.
Nesse intervalo, a China passou a priorizar compras do Brasil e da Argentina. Embora o governo dos EUA tenha anunciado compromissos chineses de aquisição de ao menos 12 milhões de toneladas nos últimos dois meses de 2025, a ASA alerta para atrasos na concretização desses volumes.
Caso esse número represente o total do ano comercial, a queda será de aproximadamente 50% em relação à média dos dois ciclos anteriores. Assim, a perda de espaço no principal mercado consumidor do mundo segue como um fator central de preocupação.
Biocombustíveis ganham importância no consumo interno
Diante da fragilidade do mercado externo, a ASA defende medidas para fortalecer a demanda doméstica. A entidade cobra a aprovação rápida das Obrigações de Volume Renovável (RVOs) para 2026 e 2027, propostas pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).
Segundo a associação, essas medidas poderiam elevar o esmagamento anual de soja em quase 200 milhões de bushels, o equivalente a cerca de 5,45 milhões de toneladas. Além disso, a ASA apoia a restrição de créditos para biocombustíveis produzidos com insumos importados, como óleo de cozinha usado.
Na avaliação do setor, essa mudança ajudaria a restaurar a competitividade do óleo de soja produzido internamente e estimularia a cadeia agrícola local.
Programa de ajuda é considerado insuficiente
Apesar da liberação de recursos federais, a ASA avalia que a ajuda econômica não cobre as perdas acumuladas. O Programa de Assistência Agrícola (FBA), recém-anunciado, foi alvo de críticas por parte da entidade.
Segundo a associação, embora a soja tenha concentrado cerca de 71% dos prejuízos na guerra comercial anterior, a cultura aparece apenas na nona posição em valor de pagamento por acre no programa atual. Mesmo com a soma de todos os auxílios disponíveis, o prejuízo médio ainda é estimado em cerca de US$ 75 por acre.
Além disso, Gerlt destaca que o cálculo do FBA utilizou preços defasados, de US$ 10,50 por bushel, superiores aos valores praticados atualmente. Isso, na prática, reduziu o volume de recursos destinados aos produtores.
Margens negativas devem persistir em 2026
O alerta não se limita à soja. A American Farm Bureau Federation (AFBF) projeta que os produtores agrícolas dos Estados Unidos devem enfrentar mais um ano de margens negativas em 2026, mesmo com apoio federal.
Segundo a federação, os custos totais por acre devem crescer entre 2,2% e 3,3% para as principais culturas, como soja, milho, trigo, algodão e arroz, conforme dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Juros elevados, fertilizantes caros e custos operacionais continuam pressionando o setor.
Mesmo após considerar os US$ 12 bilhões em auxílio anunciados pelo governo, a AFBF estima perdas médias de US$ 61 por acre para a soja em 2026. Para outras culturas, como arroz e algodão, os prejuízos projetados são ainda maiores.
Diante desse cenário, entidades do agronegócio intensificam a pressão por soluções estruturais. Entre elas, estão medidas de estímulo à demanda interna, ajustes nas políticas de biocombustíveis e avanços na legislação agrícola, que, segundo o setor, seguem lentos frente à gravidade da crise no campo.
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