QUASE 20% DOS MORADORES DE FAVELAS VIVEM EM VIAS ONDE CARROS NÃO PASSAM
Novo levantamento do IBGE revela limitações graves de mobilidade, infraestrutura e acesso a serviços essenciais nas comunidades brasileiras
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
A nova etapa do Censo 2022 expõe, com ainda mais precisão, o aprofundamento da desigualdade urbana no Brasil. De acordo com o IBGE, 3,1 milhões de moradores de favelas vivem em vias tão estreitas que apenas motos, bicicletas ou pedestres conseguem circular. Como resultado direto, ambulâncias, caminhões de lixo, viaturas e serviços básicos simplesmente não chegam até essas casas.
Além disso, essa realidade revela que 19,1% dos brasileiros que vivem em favelas enfrentam esse bloqueio físico. Fora dessas áreas, entretanto, o problema aparece para somente 1,4% da população, o que evidencia, de forma ainda mais contundente, a distância entre os dois cenários urbanos.
Acesso restrito a veículos e serviços públicos
Quando o IBGE detalha a situação, o contraste se amplia. Apenas 62% dos moradores de favelas vivem em trechos de vias capazes de receber caminhões, ônibus e veículos de carga. Fora das comunidades, por outro lado, esse percentual chega a 93,4%, o que demonstra um abismo estrutural que se mantém ao longo do tempo.
Segundo Filipe Borsani, chefe do Setor de Pesquisas Territoriais, essa falta de acesso se transforma imediatamente em perda de direitos. Conforme explica, “as vias estreitas limitam totalmente a chegada de serviços públicos essenciais”, como coleta de lixo e atendimento médico emergencial.
Além disso, o levantamento reforça que o Brasil possui 16,4 milhões de brasileiros vivendo em 12.348 favelas, distribuídos em 6,56 milhões de domicílios, o que mostra que o problema atinge milhões de famílias.
Calçadas: presença limitada e obstáculos constantes
Outro indicador que escancara a precariedade urbana é a ausência de calçadas. Enquanto 89,3% dos moradores de áreas formais contam com essa estrutura básica, apenas 53,9% dos habitantes de favelas têm acesso a calçadas.
Além disso, quando o IBGE analisa a presença de calçadas sem obstáculos:
- Fora das favelas: 22,3%
- Nas favelas: apenas 3,8% (611,4 mil pessoas)
A desigualdade aparece com ainda mais intensidade na Rocinha, onde somente 12,1% das vias têm calçadas e impressionantes 0,1% estão livres de obstáculos.
Da mesma forma, a falta de rampas para cadeirantes reforça o abandono histórico: apenas 2,4% das favelas contam com acessibilidade mínima, enquanto áreas formais chegam a 18,5%.
Pavimentação desigual e desafios regionais
O Censo mostra que 78,3% dos moradores de favelas vivem em ruas pavimentadas. Fora dessas áreas, porém, esse percentual chega a 91,8%.
À medida que as comunidades crescem, a presença de pavimentação aumenta, mas ainda assim se mantém abaixo do ideal:
- Até 250 moradores: 65,8%
- Acima de 10 mil moradores: 86,7%
Entretanto, a Bahia chama atenção ao inverter a lógica nacional: lá, as favelas têm 92,1% de pavimentação, superando as áreas formais, que registram 89,7%. Segundo o IBGE, isso pode estar ligado às próprias iniciativas de autoconstrução da população local.
Iluminação insuficiente e impacto na segurança
Embora a iluminação seja o serviço mais presente nas favelas, a diferença entre os territórios continua expressiva:
- Favelas: 91,1% têm postes de luz
- Fora delas: 98,5%
Ainda assim, quando o recorte se concentra na Rocinha, a maior favela do país, o número despenca para 54,3%, reforçando a desigualdade temática observada em outros indicadores.
Mobilidade comprometida e exclusão histórica
À medida que os pesquisadores do IBGE analisam o conjunto de dados, torna-se evidente que as comunidades periféricas carregam um padrão de exclusão histórica. Outros indicadores reforçam essa leitura, já que o Estado concentrou investimentos de infraestrutura em certas áreas e, ao mesmo tempo, negligenciou outras.
A gerente de Favelas e Comunidades Urbanas, Leticia Giannella, afirma que os dados devem fortalecer reivindicações sociais:
“Essas informações precisam servir como base para que as comunidades peçam melhorias reais e deixem de receber serviços incompletos e precários.”
Coleta de lixo e acesso a transporte: diferenças profundas
Além de tudo isso, o estudo também aponta discrepâncias importantes:
- Favelas com vias para veículos pesados:
• 86,6% têm coleta domiciliar
• 11,1% dependem de caçambas - Áreas formais:
• 92,4% têm coleta domiciliar
• 7% usam caçambas
No Centro-Oeste, por exemplo, a desigualdade fica ainda mais evidente. Ali, 4,1% dos moradores de favelas precisam buscar outras soluções para o lixo, já que o serviço não cobre o território adequadamente.
Direito de ir e vir comprometido
Ao final, os dados mostram que 3,1 milhões de brasileiros vivem em locais onde carros não entram. Portanto, essas pessoas enfrentam obstáculos diários que impactam diretamente saúde, segurança, trabalho e mobilidade, reforçando uma exclusão que vai além da renda e alcança o espaço urbano.
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