HOME OFFICE AUMENTA SOLIDÃO E PODE AFETAR SAÚDE MENTAL, APONTA ESTUDO
Pesquisa com mais de 500 mil pessoas associa trabalho remoto a mais isolamento, sofrimento psicológico e maior busca por atendimento em saúde mental
Foto: Reprodução / internet
O trabalho remoto cresceu nos últimos anos e mudou a rotina de milhões de pessoas. No entanto, uma nova pesquisa aponta que o home office também pode aumentar o isolamento social e afetar a saúde mental, principalmente entre pessoas que moram sozinhas.
O estudo analisou hábitos de trabalho, tempo de isolamento e indicadores de sofrimento psicológico em mais de 500 mil pessoas entre 2011 e 2024. Além disso, os pesquisadores excluíram os dados de 2020 e 2021, período mais crítico da pandemia de covid-19, para evitar distorções nos resultados.
Nos Estados Unidos, a parcela de pessoas trabalhando remotamente passou de 7% em 2019 para 28% em 2023. Parte desse avanço ocorreu por causa da pandemia, mas a modalidade continuou presente mesmo depois do fim das restrições sanitárias.
Trabalho remoto segue popular
Apesar dos alertas sobre saúde mental, o home office segue como preferência de muitos trabalhadores.
Segundo dados citados no estudo, parte dos profissionais aceita ganhar de 4% a 10% menos para ter a opção de trabalhar remotamente. Além disso, 55% consideram o trabalho híbrido como o modelo ideal, enquanto 24% preferem o trabalho totalmente remoto.
Entre as principais vantagens apontadas estão maior flexibilidade, economia de tempo no deslocamento e melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
No entanto, os pesquisadores destacam que os efeitos negativos do isolamento podem aparecer de forma gradual. Dessa maneira, muitos profissionais podem perceber primeiro os benefícios imediatos do home office e só depois sentir impactos no bem-estar.
Estudo separou trabalhadores por perfil
Para avaliar os efeitos do trabalho remoto, os pesquisadores dividiram os participantes em grupos.
De um lado, ficaram trabalhadores de profissões que podem ser feitas remotamente, como programadores. De outro, ficaram profissionais que normalmente precisam trabalhar presencialmente, como enfermeiros.
Além disso, cada grupo foi separado entre pessoas que moram sozinhas e pessoas que vivem com familiares ou outras pessoas.
Com isso, o estudo analisou como o aumento do home office afetou o tempo passado sozinho e a frequência de sintomas psicológicos em diferentes perfis de trabalhadores.
Tempo sozinho aumentou após a pandemia
Antes da pandemia, entre os profissionais que podiam trabalhar remotamente, apenas 10% atuavam em home office integral. Depois, esse número passou para 30%.
Nesse mesmo grupo, o tempo médio passado sozinho subiu de 5 para 8 horas por dia.
Já entre trabalhadores que precisam ir ao local de trabalho, o home office integral passou de 2% para 6%. Mesmo assim, o número de horas de solidão também aumentou, de 4 para 5 horas por dia.
Portanto, o estudo indica que o isolamento cresceu em vários grupos profissionais, inclusive em ocupações que não se enquadram naturalmente no trabalho remoto.
Impacto é maior em quem mora sozinho
A diferença mais forte apareceu entre pessoas que moram sozinhas.
Entre os trabalhadores que podem atuar remotamente e vivem sozinhos, 25% passam o dia inteiro isolados. Já entre os trabalhadores que não podem exercer a função remotamente e também moram sozinhos, esse percentual ficou em 6%.
Além disso, no período de 2022 a 2024, pessoas que moravam sozinhas passaram 45,9% dos dias de trabalho remoto completamente sozinhas. Em 31,1% desses dias, não tiveram qualquer contato social.
Dessa forma, o estudo aponta que o ambiente de trabalho presencial continua sendo uma fonte importante de convivência social para muitos adultos.
Isolamento aparece ligado a sofrimento psicológico
Os pesquisadores também cruzaram os dados de isolamento com indicadores de saúde mental.
Entre os critérios avaliados estavam testes de sofrimento psicológico, visitas a psiquiatras e prescrições de medicamentos para ansiedade e depressão.
A análise mostrou associação entre mais horas de isolamento e aumento de sintomas psicológicos e psiquiátricos. Além disso, esse efeito apareceu com mais força entre pessoas que moram sozinhas e trabalham remotamente.
Por outro lado, o estudo não encontrou a mesma relação com medicamentos para outras doenças, como colesterol alto. Esse dado ajuda a reforçar a ligação específica entre isolamento e saúde mental.
Procura por atendimento aumentou
A pesquisa também identificou maior uso de serviços de saúde mental entre trabalhadores remotos.
Segundo o levantamento, pessoas em home office apresentaram 4,6% mais probabilidade de procurar um profissional de saúde mental do que trabalhadores presenciais.
Além disso, houve aumento relativo de 1,8% nas prescrições de medicamentos para depressão e ansiedade.
Os autores também descartaram a hipótese de que o home office apenas facilitou consultas médicas durante o expediente. Isso porque exames físicos e consultas de rotina não aumentaram no mesmo período; pelo contrário, diminuíram.
Trabalho também é espaço de convivência
O estudo destaca que a socialização fora do expediente não compensou de forma significativa a perda de convivência no ambiente profissional.
Além disso, os pesquisadores citam que muitos adultos fazem amizades no trabalho com mais frequência do que em igrejas, clubes, vizinhança ou escolas dos filhos.
Assim, a redução do contato presencial com colegas pode diminuir uma das principais fontes de interação social na vida adulta.
Pesquisa aponta limites
Apesar dos resultados, os autores ressaltam que ainda existem limitações.
Como os dados vão até 2024, a pesquisa ainda não mede completamente possíveis adaptações de longo prazo. Portanto, ainda não é possível saber se trabalhadores remotos conseguirão construir novas redes sociais fora do ambiente profissional nos próximos anos.
Além disso, o estudo analisa associações entre trabalho remoto, isolamento e saúde mental, mas também considera que outros fatores podem influenciar o bem-estar dos trabalhadores.
Os pesquisadores apontam que o home office responde por cerca de um terço do aumento no sofrimento psicológico observado no período analisado.
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