FILHOS LIDERAM CASOS DE VIOLÊNCIA CONTRA IDOSOS NO BRASIL, APONTA ESTUDO
Levantamento registra mais de 180 mil denúncias em 2025 e mostra que abusos ocorrem principalmente dentro do ambiente familiar
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O Brasil registrou 180.004 denúncias de violência contra pessoas idosas em 2025, segundo a atualização do Mapa da Violência contra a Pessoa Idosa no Brasil, coordenada pela professora Alessandra Funchal Camacho, da Universidade Federal Fluminense.
De acordo com o levantamento, filhos e filhas aparecem como autores em 55% dos casos. Além disso, a maior parte das agressões ocorre dentro da residência da própria vítima, ambiente que deveria oferecer proteção e segurança.
As mulheres representam 63,44% das vítimas. Já os idosos com 80 anos ou mais formam a faixa etária mais atingida, com 24,01% das denúncias.
Embora os registros tenham crescido, pesquisadores alertam que a realidade pode ser ainda mais grave. Isso porque muitas situações de negligência, violência psicológica e exploração financeira permanecem sem denúncia.
Violência vai além da agressão física
Quando se fala em violência contra idosos, as agressões físicas costumam receber maior atenção. No entanto, os abusos também aparecem de formas menos visíveis.
Entre os principais tipos estão negligência, abandono, violência psicológica, isolamento social e exploração financeira ou patrimonial.
Em alguns casos, familiares controlam aposentadorias, movimentam contas bancárias ou contratam empréstimos sem que a pessoa idosa compreenda a operação. Além disso, também há situações de pressão para a assinatura de procurações, contratos, doações e documentos relacionados a imóveis.
Ao mesmo tempo, a violência contra a autonomia ocorre quando terceiros deixam de consultar o idoso sobre decisões relacionadas à própria saúde, ao patrimônio ou à rotina.
Caso do tio Paulo ampliou debate
O caso conhecido como “tio Paulo” ganhou repercussão nacional após uma mulher levar o corpo do tio a uma agência bancária para tentar concluir um empréstimo.
Independentemente da responsabilização criminal, que cabe à Justiça, o episódio também levantou discussões sobre negligência, exploração financeira e a condição das famílias responsáveis por pessoas idosas dependentes.
Dessa forma, especialistas defendem que o debate não se limite à punição individual. Para eles, prevenir novos casos também exige políticas de apoio às famílias, acompanhamento domiciliar e atenção à saúde mental de quem exerce o cuidado.
Isso não retira a responsabilidade de quem pratica a violência. Contudo, permite identificar fatores que podem aumentar o risco de abusos e orientar medidas preventivas.
Sobrecarga dos cuidadores aumenta riscos
Demências, depressão, isolamento social, dependência para atividades diárias e baixa renda estão entre os fatores associados a uma maior vulnerabilidade da pessoa idosa.
Além disso, a sobrecarga dos cuidadores também pode contribuir para ambientes de conflito, negligência e adoecimento.
Na maioria das famílias, mulheres assumem a responsabilidade principal pelos cuidados. Ao mesmo tempo, elas precisam conciliar trabalho remunerado, tarefas domésticas, maternidade e assistência a pais, avós ou companheiros.
Por isso, especialistas defendem a ampliação de centros-dia, serviços de atenção domiciliar e instituições de longa permanência acessíveis e de qualidade.
A oferta de orientação e acompanhamento psicológico aos cuidadores também aparece como uma medida de proteção. Afinal, quando o cuidador adoece, a qualidade do cuidado pode ser comprometida.
Mulheres são maioria entre vítimas
Segundo o estudo da UFF, as mulheres correspondem a quase dois terços das vítimas registradas em 2025.
Além disso, pela primeira vez na série analisada, as filhas apareceram em número ligeiramente superior aos filhos entre os autores das agressões denunciadas.
Os pesquisadores, porém, afirmam que o dado não deve servir para demonizar familiares ou mulheres cuidadoras. Na verdade, ele evidencia que a violência ocorre principalmente dentro das relações de cuidado.
Regionalmente, o Sudeste concentrou 51,67% das notificações. Em seguida aparecem o Nordeste, com 20,67%, e o Sul, com 14,49%.
Exploração financeira preocupa especialistas
Entre as formas menos visíveis de violência está o abuso patrimonial.
Ele pode ocorrer quando familiares utilizam recursos do idoso sem autorização, contratam empréstimos consignados, vendem bens ou assumem o controle de imóveis e contas bancárias.
Em outras situações, parentes passam a morar na residência da pessoa idosa sob a justificativa de oferecer cuidados. Depois disso, porém, podem restringir espaços, afastar outras pessoas da família e retirar do proprietário o poder de decisão sobre a própria casa.
Além disso, instrumentos jurídicos também podem ser usados de maneira abusiva. Apesar da aparência de legalidade, procurações, doações e medidas de curatela podem representar violência quando não respeitam a vontade e os interesses do idoso.
Idade não significa incapacidade
A legislação brasileira não estabelece uma idade a partir da qual uma pessoa perde automaticamente o direito de administrar a própria vida.
Portanto, idosos com 80 ou 90 anos podem tomar decisões sobre patrimônio, saúde e rotina, desde que mantenham capacidade de discernimento.
A Justiça só pode limitar a capacidade civil depois de uma avaliação técnica e de uma decisão judicial.
Mesmo nesses casos, a curatela deve atender apenas às necessidades comprovadas da pessoa. Dessa forma, o curador não pode utilizar recursos ou vender bens para benefício próprio.
Especialistas reforçam que proteger não significa substituir todas as escolhas do idoso. Pelo contrário, o cuidado deve criar condições para que ele continue tomando decisões com segurança, informação e apoio.
Violência psicológica pode causar isolamento
A violência emocional nem sempre envolve gritos ou ameaças. Em muitos casos, ela começa quando a pessoa idosa passa a ser tratada como incapaz e deixa de participar das decisões familiares.
Além disso, familiares ou cuidadores podem impedir visitas, controlar contatos e afastar o idoso de amigos, filhos ou netos.
Há também casos em que alguém cria relatos falsos para romper vínculos afetivos. Esse comportamento pode provocar medo, solidão, sintomas depressivos e perda gradual da autonomia.
Por outro lado, a manutenção das relações sociais e da participação nas decisões contribui para preservar a autoestima, a saúde cognitiva e a qualidade de vida.
Sinais podem ajudar a identificar abusos
Mudanças repentinas de comportamento podem indicar uma situação de violência. Entre os sinais de alerta estão isolamento, medo excessivo de familiares ou cuidadores e falta de cuidados básicos.
Lesões sem explicação, alterações incomuns nas contas bancárias e dificuldades para compreender documentos assinados também exigem atenção.
Além disso, decisões tomadas por terceiros sem consultar a pessoa idosa podem representar uma tentativa de retirar sua autonomia.
Quando houver suspeita ou confirmação de violência, a denúncia pode ser feita pelo Disque 100, pelos Conselhos Municipais da Pessoa Idosa, pela Defensoria Pública, pelo Ministério Público ou pelas autoridades policiais.