ANVISA AUTORIZA USO DO MOUNJARO PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM DIABETES TIPO 2
Medida libera o uso para pacientes de 10 a 17 anos; agência prepara novas regras para a manipulação de canetas emagrecedoras
Reprodução/Internet
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, nesta quarta-feira (22), o uso do medicamento Mounjaro para o tratamento do diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos. Até então, o remédio era autorizado no Brasil somente para adultos, tanto no controle da doença quanto no tratamento da obesidade e, em alguns casos, da apneia do sono relacionada ao excesso de peso.
A decisão ocorre em um cenário preocupante: o Brasil está entre os dez países com maior número de casos de diabetes tipo 2 nessa faixa etária, uma condição antes mais frequente em adultos. Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, aproximadamente 213 mil adolescentes convivem com a doença, enquanto cerca de 1,46 milhão apresentam pré-diabetes. Esse crescimento está diretamente ligado ao aumento da obesidade infantil, atualmente, um em cada três adolescentes brasileiros está acima do peso.
Base científica
A liberação do medicamento se apoia em resultados de um estudo clínico internacional de fase 3, chamado SURPASS-PEDS, publicado em setembro de 2025 na revista The Lancet. Esse tipo de pesquisa é considerado decisivo antes da aprovação de um tratamento em larga escala, pois avalia sua eficácia e segurança.
O estudo acompanhou adolescentes com diabetes tipo 2 durante 30 semanas, comparando aqueles que receberam o medicamento com um grupo que utilizou placebo. Um dos principais parâmetros analisados foi a hemoglobina glicada, exame que reflete a média da glicose no sangue nos últimos três meses.
Os participantes que utilizaram o Mounjaro apresentaram uma redução média de 2,2 pontos percentuais, partindo de cerca de 8%, indicando melhora expressiva no controle glicêmico. Entre os que receberam a dose de 10 mg, 86,1% atingiram o nível considerado adequado, com hemoglobina glicada igual ou inferior a 6,5%.
O estudo também observou efeitos no peso corporal. Considerando o índice de massa corporal (IMC), ajustado para idade e fase de crescimento, houve redução média de 11,2% na maior dose ao longo do período analisado.
Segurança
No que diz respeito à segurança, o perfil identificado foi semelhante ao já conhecido dessa classe de medicamentos, os agonistas de incretinas (GLP-1). Não foram registrados casos de hipoglicemia grave, e poucos participantes precisaram interromper o tratamento devido a efeitos adversos.
As reações mais comuns foram gastrointestinais, como náuseas, vômitos e diarreia. Em geral, esses efeitos foram leves a moderados e ocorreram principalmente no início do tratamento, durante a adaptação do organismo.
Ampliação e novas medidas
De acordo com a Anvisa, a mudança se refere exclusivamente à ampliação do público indicado para o tratamento do diabetes tipo 2, que agora passa a incluir pacientes pediátricos. As demais indicações do medicamento permanecem restritas aos adultos.
O Mounjaro faz parte da classe dos agonistas do receptor GLP-1, popularmente chamados de “canetas para emagrecimento”.
Na próxima semana, a diretoria da Anvisa deve avaliar uma proposta de norma que estabelece critérios técnicos para a manipulação desses medicamentos. A iniciativa integra um conjunto de ações regulatórias e de fiscalização anunciado recentemente pela agência.
Além disso, foram instituídos dois grupos de trabalho para reforçar o controle sanitário. Um deles reúne representantes do Conselho Federal de Farmácia (CFF), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Conselho Federal de Odontologia (CFO). O outro terá a função de acompanhar a execução das medidas e sugerir melhorias nas estratégias adotadas.
Na prática, a decisão amplia as alternativas de tratamento para um público que cresce rapidamente e ainda conta com poucas opções terapêuticas, refletindo a mudança no perfil do diabetes tipo 2, cada vez mais presente entre jovens.