INDÚSTRIA BRASILEIRA DIRÁ AOS EUA QUE TARIFA DE 25% TERÁ EFEITO BUMERANGUE
Entidades vão argumentar em audiência em Washington que sobretaxa elevará custos de produtores e consumidores americanos
Foto: Reprodução / Internet
Representantes da indústria brasileira vão defender, em audiência pública nos Estados Unidos, que a proposta de uma sobretaxa de 25% sobre produtos do Brasil pode prejudicar mais a economia americana do que os exportadores brasileiros.
A audiência ocorrerá na segunda-feira (6), em Washington. Além disso, o encontro faz parte da investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos sobre políticas e práticas brasileiras consideradas prejudiciais a empresas americanas.
A Confederação Nacional da Indústria e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo estão entre as entidades que participarão da audiência. As duas organizações terão seus argumentos apresentados pelo embaixador Roberto Azevêdo.
Também participarão representantes de setores como máquinas, calçados, ferro-gusa, madeira, café e rochas ornamentais.
Entidades falam em erro jurídico e econômico
O principal argumento da indústria será de que a tarifa não se sustenta sob os pontos de vista jurídico, econômico e estratégico.
Segundo as entidades, grande parte das exportações industriais brasileiras para os Estados Unidos é formada por insumos, matérias-primas e bens de capital.
Além disso, em muitos casos, o comércio ocorre entre matrizes e filiais de uma mesma companhia.
Dessa forma, os produtos brasileiros não competem diretamente com a produção americana. Pelo contrário, segundo a indústria, eles complementam cadeias produtivas dos Estados Unidos.
Por isso, uma tarifa adicional funcionaria como um aumento de custos para as próprias empresas americanas.
Tarifa pode chegar ao consumidor americano
As entidades brasileiras vão argumentar que os custos adicionais podem ser repassados ao consumidor dos Estados Unidos.
Além disso, empresas americanas que dependem de matérias-primas e componentes brasileiros poderiam perder competitividade.
A CNI calcula que mais de 35,2% das manufaturas exportadas pelo Brasil poderiam ser atingidas pelas novas tarifas.
Ao mesmo tempo, a indústria defende que uma substituição rápida dos fornecedores brasileiros seria difícil em diversos setores.
Com isso, as empresas americanas poderiam recorrer a concorrentes de outros países, especialmente da Ásia.
China pode ocupar espaço do Brasil
A Câmara Americana de Comércio também alertou para o risco de aumento da dependência dos Estados Unidos em relação à China.
Segundo a entidade, o país asiático já está entre os três principais fornecedores em mais da metade das categorias de produtos que os americanos compram do Brasil.
Assim, caso as tarifas reduzam a competitividade dos produtos brasileiros, fornecedores chineses podem ocupar parte desse espaço.
Por outro lado, as entidades destacam que o comércio entre Brasil e Estados Unidos é marcado por uma forte integração entre cadeias produtivas.
Máquinas e equipamentos destacam integração
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos também participará da audiência.
Segundo a entidade, mais de 80% do comércio bilateral do setor ocorre entre empresas coligadas, como matrizes e filiais.
Além disso, as máquinas e os componentes brasileiros abastecem setores como energia e infraestrutura nos Estados Unidos.
Em 2025, as importações americanas de máquinas e equipamentos brasileiros somaram US$ 3,2 bilhões. Ainda assim, o comércio bilateral do setor terminou o ano com superávit de US$ 1,2 bilhão para os Estados Unidos.
WEG destacará empregos nos Estados Unidos
A WEG também apresentará argumentos contra a sobretaxa.
A subsidiária americana da companhia emprega cerca de 2.300 trabalhadores e participa de cadeias ligadas à energia, à indústria e à infraestrutura.
Além disso, a empresa fechou contrato para fornecer cerca de 600 motores a um projeto de processamento de lítio em Nevada.
Segundo a companhia, a tarifa reduziria a competitividade da economia americana e poderia prejudicar trabalhadores e investimentos nos Estados Unidos.
Bauducco pedirá exclusão das tarifas
A Bauducco também pretende pedir que seus produtos sejam excluídos da sobretaxa.
A empresa inaugurou recentemente uma fábrica na Flórida, em um projeto de aproximadamente US$ 200 milhões.
Quando operar com capacidade total, a unidade prevê gerar cerca de 600 empregos.
Por isso, a companhia argumentará que a imposição da tarifa pode reduzir investimentos, limitar a criação de vagas e aumentar os custos para o varejo e para os consumidores americanos.
A empresa pretende solicitar uma exclusão das tarifas por um período de três a cinco anos.
Café busca manter isenção
O setor cafeeiro também participará da audiência.
O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil vai defender a manutenção da isenção para o café verde brasileiro. Além disso, a entidade pretende pedir a inclusão do café solúvel na lista de exceções.
A estratégia foi desenvolvida em conjunto com a National Coffee Association, que representa a indústria cafeeira americana.
O setor argumenta que o Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo, enquanto os Estados Unidos estão entre os principais mercados consumidores.
Dessa forma, uma tarifa sobre o produto brasileiro poderia elevar diretamente os preços pagos pelos americanos.
Setor de rochas também alerta para aumento de custos
A indústria de rochas ornamentais adotará uma estratégia semelhante.
Segundo o setor, cerca de 85% das pedras naturais consumidas nos Estados Unidos são importadas. Além disso, aproximadamente um quarto desse volume tem origem no Brasil.
As entidades afirmam que as rochas brasileiras são transformadas e distribuídas pela própria indústria americana.
Por isso, a tarifa pode atingir toda a cadeia, desde empresas processadoras até o consumidor final.
Brasil contesta argumentos da investigação
Além dos efeitos econômicos, as entidades brasileiras também vão contestar os fundamentos da investigação americana.
A Fiesp, por exemplo, destacará avanços na área de propriedade intelectual. Segundo a entidade, o estoque de patentes pendentes caiu de 147 mil para cerca de mil.
Além disso, a indústria brasileira deve mencionar medidas contra a pirataria e o desmatamento ilegal.
As entidades também rejeitam a avaliação de que acordos comerciais do Brasil prejudiquem empresas dos Estados Unidos.
Segundo a Fiesp, empresas americanas pagam uma tarifa média efetiva de 2,6% para acessar o mercado brasileiro devido a regimes especiais de isenção.
Pix está entre os pontos investigados
A investigação americana ocorre com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.
Entre os temas analisados estão o comércio digital, os serviços de pagamento eletrônico, incluindo o Pix, as tarifas preferenciais, a aplicação de medidas anticorrupção, a proteção da propriedade intelectual, o mercado de etanol e o combate ao desmatamento ilegal.
As entidades brasileiras defendem que eventuais divergências sejam tratadas por meio de diálogo e cooperação bilateral.
A audiência sobre a proposta de sobretaxa de 25% está marcada para segunda-feira (6), a partir das 9h, no horário de Brasília, em Washington.
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